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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Papa visita a Sinagoga de Roma

*por Anita S. Bourdin
ZENIT / BBC Brasil / Jornal Alef Edição 1407



Durante cerca de duas horas, o papa Bento XVI realizou no último domingo a sua primeira visita à sinagoga de Roma - gesto que o Vaticano espera ser visto como um marco nas relações entre as religiões católica e judaica. Essa foi a terceira visita do papa a um templo judaico desde que assumiu a Santa Sé em 2005.

O pontífice católico insiste em levar adiante planos de canonizar o papa Pio 12, que dirigiu a igreja católica durante a Segunda Guerra Mundial, contra protestos judeus. Grupos judeus se sentem ofendidos pela iniciativa, já que o falecido papa é acusado de não ter se esforçado o suficiente para evitar o Holocausto nazista, e promoveram um boicote à visita. No entanto, o pontítice foi recebido por líderes judeus de Roma e internacionais. O Vaticano, no entanto, alega que registros históricos comprovariam que o papa ajudou muito judeus. A sinagoga de Roma, próxima ao Vaticano, é considerada lar espiritual da mais antiga comunidade judaica fora de Israel. A visita de Bento 16 é apenas a segunda de um papa ao local em toda a história.

A comunidade judaica brasileira foi representada pelo rabino Alexandre Leone na visita que o papa Bento XVI , à Grande Sinagoga de Roma, quando o pontífice repetiu gesto feito há mais de 20 anos por seu antecessor, o papa João Paulo II. Em 13 de abril de 1986, em Roma, João Paulo II se tornou o primeiro papa a visitar uma sinagoga.

GESTOS DE BENTO XVI EM SUA VISITA À SINAGOGA DE ROMA


A visita de Bento XVI à comunidade judaica de Roma incluiu vários gestos significativos, entre eles a comemoração da deportação de 1954, do atentado de 1982, da visita de João Paulo II em 1986, um emotivo encontro com o rabino Toaff e a referência à história dos judeus e dos Papas, uma peregrinação de alegrias e tristezas abertas à esperança.

O Papa chega a pé

O primeiro dos gestos que marcaram a visita de Bento XVI foi percebido em sua chegada ao Pórtico de Ottavia, no antigo bairro de Guetto, e sua caminhada a pé até a sinagoga.
Bento XVI estava guiado por Riccardo Pacifici, presidente da Comunidade Judaica de Roma, e guiado por Renzo Gattegna, presidente da União das Comunidades Judaicas Italianas (UCEI).
No caminho, o Papa realizou outros gestos significativos. Entre eles, prestou homenagem aos judeus de Roma deportados após a detenção de 16 de outubro de 1943, diante da placa que recorda esta tragédia. Depositou uma coroa de rosas vermelhas e se recolheu.

A detenção de 1943 e a Shoá

Em seu discurso, o Papa evocou a Shoá como "um drama singular e perturbador" que "representa de alguma forma o início de um caminho de ódio que nasce quando o homem esquece do seu Criador e se coloca no centro do universo". Citou as palavras que pronunciou na visita a Auschwitz, em 28 de maio de 2006, "profundamente impressas em minha memória", disse.

O abraço no rabino Toaff

Um encontro imprevisto foi particularmente emotivo: o que ele teve, aos pés do seu edifício, com o grão-rabino emérito Elio Toaff, que havia acolhido João Paulo II na Grande Sinagoga em 1986.
O rabino Toaff, cálido, destacou que cumpriria 95 anos em abril e o Papa lhe deu os parabéns.

Sob o signo das crianças

O Papa prestou uma homenagem - um ramo de flores brancas - à memória de um menino judeu de 2 anos de idade, falecido no ataque terrorista de 1982 contra a sinagoga de Roma, ataque então severamente condenado por João Paulo II no dia seguinte, 10 de outubro, depois do Ângelus.
O Papa se encontrou com a mãe, o irmão mais velho (que tinha então 4 anos) e o pai do jovem Stefano Gay Taché. Cumprimentou pessoalmente outros sobreviventes, que permaneceram durante muito tempo entre a vida e a morte.

Os arquivos

O presidente Pacifici cumprimentou as personalidades e grupos representados, incluindo um grupo de muçulmanos italianos. Recordou com emoção que seu avô, o rabino de Milão, foi deportado com sua esposa, Wanda, enquanto seu pai, Emmanuel, foi acolhido pelas Irmãs de Santa Marta, de Florença, e cumprimentou a Irmã Vittoria, uma religiosa desta comunidade presente na sinagoga.
Pacifici mencionou o patrimônio cultural judaico conservado nos arquivos do Vaticano. Também se referiu aos desaparecidos, assim como ao soldado franco-israelense Guilad Shalit, prisioneiro na Faixa de Gaza e com cujos familiares o Papa teve um encontro em Israel.
Sobre Pio XII e os arquivos, o Papa afirmou que a Sé Apostólica também participou da salvação dos judeus, "frequentemente de maneira oculta e discreta".

Defender os direitos humanos

Em seu discurso, Renzo Gattegna cumprimentou o Papa em nome das 21 comunidades judaicas da Itália; também evocou os papas João XXIII e João Paulo II, incluindo a petição de perdão do ano 2000.
Indicou um caminho para a colaboração entre judeus e católicos: a defesa dos direitos humanos fundamentais no mundo. Também desejou que haja colaboração entre judeus, cristãos e muçulmanos, que reconhecem o "Deus único", para que chegue ao mundo "uma era de paz".

Responsabilidade de paz universal

O grão-rabino Di Segni, por sua vez, também insistiu no fato de que judeus, cristãos e muçulmanos deve agora trabalhar juntos, porque têm uma "responsabilidade de paz" especial, e de "paz universal", aquela anunciada pelo profeta Isaías, a quem citou.
Propôs uma meditação a partir da palavra "irmãos", utilizada por João Paulo II em 1986.
Como em eco, o Papa concluiu seu discurso com o desejo de "um amor fraterno crescente".

Rumo à autêntica fraternidade

Na visita, o Papa inaugurou a exposição Et Ecce gaudium, no Museu Judaico de Roma, que permanecerá aberta ao público até 31 de março.Ela inclui 14 telas do século XVIII, feitas pela comunidade judaica de Roma para a coroação de diferentes papas: Clemente XII (1730), Clemente XIII (1758), Clemente XIV (1769) e Pio VI (1775). O material foi encontrado nos arquivos históricos da Comunidade Judaica de Roma."O Papa Bento XVI é o primeiro pontífice a visitar um museu judaico. É uma honra imensa para o nosso museu, que, com esta mostra, inaugura também as celebrações dos seus 50 anos", afirmou a diretora do Museu, Daniela di Castro. A comunidade judaica romana é a mais antiga do mundo ocidental.

Ao acompanhar o Papa até seu carro, mais de duas horas após sua chegada, Ricardo Pacifici disse, apertando as mãos do Papa: "Obrigado, de verdade. Seguimos adiante!" ("Andiamo avanti!").



http://www.zenit.org/article-23844?l=portuguese

Fonte: BBC/Alef/Zenit