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Vozes do passado, Visão do futuro

*por Henry Chmelnitsky
Presidente da FIRS


No próximo dia 27, a primeira sinagoga das Américas, a Kahal Zur Israel, em Recife, será o palco de uma cerimônia para marcar o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, instituído pela ONU em 2005. A combinação histórica traz à mente a lembrança de dois terríveis momentos da trajetória do povo judeu. Primeiro, as milhões de pessoas assassinadas pelo nazismo. Segundo, a Inquisição, responsável pela fuga dos judeus pernambucanos no século 17, alguns dos quais, que em busca de liberdade religiosa, acabaram aportando em Nova Amsterdã, posteriormente rebatizada de Nova York.

A história judaica, em muitos momentos, confunde-se com a história da luta pela liberdade e pelo respeito aos direitos individuais. Das cinzas do Holocausto, israelenses construíram uma sociedade democrática e com uma economia vibrante. Um polo impressionante de produção de tecnologia de ponta, que transita da agricultura à nanomedicina. Uma sociedade na qual convivem as liberdades de expressão, religiosa e de orientação sexual. Um país judaico onde vivem mais de um milhão de árabes, cerca de 20% da população, num universo de liberdades individuais e de oportunidades econômicas bastante raras em seus países vizinhos.

Não se trata aqui de negar que haja problemas na sociedade israelense. Longe disso. Mas como qualquer regime democrático, conta ela com os mecanismos necessários para seguir na correção de rumos. O problema que desejamos enfocar é de outra natureza: trata-se da vontade persistente, de diversas forças, de destruir e deslegitimar Israel.

Desde sua criação em 1948 pela ONU - coincidentemente, 27 de janeiro de 2010 marca os cinqüenta anos do falecimento do diplomata brasileiro Osvaldo Aranha - Israel não contou com um dia sequer de paz. Em décadas passadas, a ameaça era de "jogar os judeus ao mar", hoje fala-se em "varrer Israel do mapa". Infelizmente, um país com mais vocação para as artes e para as ciências precisa manter uma importante estrutura militar, sacrificando seus jovens cidadãos, para garantir sua sobrevivência.

Mesmo sob ataques constantes, Israel não deixa de dividir suas pesquisas, descobertas e patentes com a comunidade global, buscando soluções inteligentes que contribuam com a construção de um mundo melhor e mais justo. É o que estamos vendo no Haiti, onde a força israelense conta com mais de 200 profissionais, um hospital de campanha de última geração que atende mais de 500 vítimas por dia. O que os críticos do sionismo têm a dizer sobre isso?

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, vai comparecer à cerimônia em Recife, no quinto ano consecutivo em que prestigia a cerimônia em memória das vítimas do Holocausto, atitude que merece nossos sinceros elogios e agradecimento. Porém, na questão do relacionamento com o Irã, divergimos. A história nos adverte quanto a líderes que baseiam sua política na segregação e no fanatismo.

Aproveitando o ambiente democrático de nosso país, desejamos colocar, com a maior transparência, outro ponto de discordância. A hipótese aventada pelo Itamaraty, de dialogar diretamente com o Hamas, grupo que patrocina ações terroristas e prega a destruição de Israel, significa legitimar e fortalecer uma organização que rejeita os valores democráticos, humanistas e progressistas do século 21.  Com o atual governo do Irã e o Hamas prestigiados, a agenda do Oriente Médio retroage na história.

Entretanto, cultivamos a convicção de que o presidente Lula, como democrata, convive perfeitamente com as diferenças de opinião e com o diálogo inerente à relação entre governo e sociedade civil. Confiamos em suas intenções quanto à estratégia brasileira de buscar um papel ativo nas negociações para a obtenção de um sonhado acordo de paz entre israelenses e palestinos e torcemos muito pelo sucesso de sua viagem ao Oriente Médio, prevista para março.

Gostaríamos de sugerir ao presidente uma mensagem a ser enfatizada: a região viveria uma realidade diferente se grupos passassem, em vez de fanaticamente empenhar-se na destruição de Israel, a priorizar políticas de desenvolvimento e de busca do bem estar de suas populações, em especial de suas crianças.

O Brasil vem proporcionando ao mundo um exemplo de modelo responsável pelo resgate de milhões de pessoas da pobreza. O século 21 desponta como a era das economias emergentes. Essa tendência, no entanto, não encontra eco nos países árabes do Oriente Médio, onde sistemas políticos autoritários e economias engessadas condenam suas populações a viver com perspectivas esquálidas de melhorias em áreas como emprego, saúde e educação.

O prestígio internacional de nosso presidente pode representar ferramenta valiosa para tirar essa região conturbada da armadilha do fanatismo e colocá-la no caminho do desenvolvimento. Essa é a mensagem que se impõe num mundo que deixa para trás as amarras ideológicas da Guerra Fria e cria um futuro de esperança, de cooperação.  Afinal, todas as populações e grupos étnicos do Oriente Médio merecem viver em segurança e com prosperidade. E todas as forças democráticas dessa histórica região merecem ser valorizadas e prestigiadas, assim como aquelas que pregam ódio e destruição devem ser convocadas a rever suas posições, e por fim participar de um debate direto e amplo pela paz.