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O tempo está maduro para acabar com o conflito árabe-israelense

*Por Shimon Peres
Presidente de Israel

A viagem do Presidente Obama à Arábia Saudita e ao Egito pode ser uma oportunidade.  Reflete tanto a necessidade de uma mudança histórica no Oriente Médio como também uma chance única de obter esta mudança.

Muitas idéias estão sendo discutidas.  Um conceito significante é a iniciativa de paz do Rei da Arábia Saudita, Abdullah, que foi adotada pela Liga Árabe em Beirute.  Há muita sabedoria também na proposta do Rei Abdullah da Jordânia, de uma "solução de 57 estados", para o conflito árabe-israelense.

Os Reis estão certos ao ver tanto a destinação apropriada como o caminho mais certo para sua realização.  Com o apoio da liderança do Egito, parece que a hora é certa para acabar com o conflito árabe-israelense de uma vez por todas.

Para se obter este objetivo histórico, há necessidade de uma abordagem de dois caminhos.  Isto requer negociações bilaterais entre Israel e cada um de seus vizinhos - os palestinos, Síria e Líbano.  E um após o outro, um processo regional de normalização de relações entre Israel e os estados árabes.

Tal arquitetura diplomática pode introduzir uma estratégia de ganhar-ganhar para todos os lados.  O apoio de todo o mundo árabe dará legitimidade à Autoridade Palestina ao se aproximar de sua difícil tarefa de fazer e depois implementar compromissos históricos.  Ao mesmo tempo, pode assegurar à Israel que as dolorosas concessões que fará serão recompensadas por uma paz abrangente mais ampla e mais duradoura por toda a região.

Esta abordagem já está definida no internacionalmente aceito "Mapa do Caminho".  Esta estrutura esboça certos passos de normalização em relação à Israel que devem ser tomados pelos estados árabes à medida que o processo bilateral avança.  Em sua segunda fase, conclama ao estabelecimento de um estado palestino com fronteiras provisórias que servirão como um passo em direção ao status permanente.  Um plano igual foi negociado no passado.  Os palestinos rejeitaram fronteiras provisórias preocupados que estas pudessem se tornar permanentes.  Um acordo regional com garantias dos EUA e da Europa poderá aliviar dúvidas.

Olhando para trás, confesso que planos bem elaborados de paz não são suficientes por si só.  Eventos inesperados ocasionalmente decidem o destino da guerra e da paz - como um turbilhão, podem arrancar pensamentos obstinados de longa data.  Por exemplo, se as negociações egípcio-israelenses tivessem sido guiadas apenas por advogados, imagino se a paz teria sido alcançada tão rapidamente.

O que ocasionou o tratado de paz egípcio-israelense, assinado em 1979, foi uma viagem de menos de meia hora- o tempo que levou para Anwar Sadat  voar do Cairo para Jerusalém.  Esta hora mudou o curso da história no Oriente Médio.  Não porque exerceu pressão, mas porque diminuiu temores antigos.  Isto capturou a imaginação das pessoas e criou um ponto de retorno muito mais poderoso que a pressão externa.  Israel e o Egito foram surpreendidos pelo tremendo efeito desta viagem.  Esta viagem colocou um final à história da suspeita.

O pai do Rei Abdullah da Jordânia fez algo semelhante em 1997, após sete moças israelenses terem sido assassinadas por um soldado jordaniano.  Suas famílias viviam em Beit Shamesh, uma cidade perto de Jerusalém.  O Rei Hussein, não se importando com o protocolo, dirigiu até Beit Shemesh, onde visitou cada uma das família enlutadas.  Ele buscou o perdão genuíno.  O impacto desse gesto inesperado sobre o público israelense foi espetacular.  Até os dias de hoje, esta visita é tida como um ponto de retorno nas relações entre os dois países.

Uma paz regional pode ter  o mesmo efeito dramático, desde que haja preparações adequadas.  Pode ter o potencial de estilhaçar preconceitos e superar pequenas barganhas.  Entretanto, por mais que os negociadores sejam eruditos e astutos, eles não podem fazer face ao impacto de um gesto como este.  Uma paz regional é mais viável hoje do que nunca foi antes.  A alternativa à paz regional é uma rachadura regional.  

Muitos líderes árabes percebem que um Irã em busca de hegemonia na região, se constitui em uma ameaça à sua própria existência e identidade.  Para estes, o desafio primário não é Israel, mas os aiatolás iranianos, que desejam dominar o Oriente Médio, usando o terrorismo e ameaças de uso de armas não convencionais.  Israel é cada vez mais visto como parte de um novo caminho para uma solução regional.  Uma estrutura de segurança regional também ajudará Israel a garantir seu grande interesse por segurança.

Uma paz regional também lidará com desafios vitais como a falta de água, poluição ambiente, e pobreza.  Estes problemas parecem nacionais, mas são regionais - como também suas soluções.   Sua resolução depende da ciência e tecnologia que não reconhece fronteiras.  A Europa manteve suas fronteiras políticas, mas as abriu para o progresso.  As nações do Oriente Médio podem fazer o mesmo.

Para manter os ventos de mudança soprando, temos de renovar as negociações bilaterias com os palestinos, apoiados por iniciativas econômicas e ambientais claras.  A "paz econômica" não é um substituto para a "paz política", mas um catalisador para o progresso.  

Os líderes regionais têm de tratar estas ameaças com seriedade - não como uma oportunidade de aparecer, mas com uma discussão substancial dirigida à abertura da porta em direção à uma paz abrangente e desenvolvimento econômico regional.

O espírito positivo da iniciativa de paz árabe, junto com o Mapa do Caminho, providencia uma oportunidade clara. Israel não tomou parte da eleboração do texto desta iniciativa de paz, e, sendo assim, não deveria se esperar que aceite o texto integral.  Mas Israel se privará de impor suas próprias palavras aos outros partidos e está pronto a negociar em uma base comum.  As negociações regionais devem começar sem pré-condições.  

Sua Majestade, o Rei da Jordânia, está certo ao enfatizar que esta é uma oportunidade única.  É hora de velejar no vento forte, que hoje sopra na direção certa.  Não há força maior do que o poder de uma idéia que deu certo.  Este é o caso da paz nos dias de hoje.

Os passageiros estão prontos.  O navio está aguardando. É hora dos navegadores controlarem o leme.