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Morrer no Haiti

*por Carlos Brickman
Pletz

Quando o astrônomo Galileu Galilei, para sobreviver à Inquisição, renegou suas teorias, um discípulo o criticou: "Pobre do povo que não tem heróis!" E Galileu, segundo Brecht, o corrigiu: "Pobre do povo que precisa de heróis".

O Haiti não tinha heróis e foi preciso importá-los. Importou os militares brasileiros, que cumpriram seu dever de manter a ordem com eficiência e sem violência; que morreram no terremoto, ao lado dos haitianos; e que, mesmo tendo de enterrar seus mortos, lançaram-se à tarefa da salvação dos sobreviventes.


E dona Zilda Arns. Ela morreu como gostava de viver: trabalhando, dando o exemplo, esquecida do cansaço e da idade. Aos 75 anos, viúva, mãe de cinco filhos e avó de oito netos, o anjo que cuidou de tantas outras crianças e idosos achou tempo e forças para viajar ao Haiti e mostrar suas experiências a um povo que delas muito necessitava. A Pastoral da Criança e a Pastoral do Idoso, que criou, são referências internacionais, justo orgulho da Igreja Católica e do Brasil.

O Haiti precisava de heróis. Foi encontrá-los entre soldados brasileiros muito jovens e uma santa brasileira de avançada idade e inesgotável boa-vontade.

Um ramo místico do Judaísmo conta a história de 36 pessoas santificadas, os Justos. Há no mundo, sempre, 36 Justos; pessoas que fazem o bem, que anonimamente se sacrificam pelos outros. Por sua simples existência, justificam perante Deus a sobrevivência da Humanidade, que sem eles seria aniquilada.

Perdemos Zilda Arns, sem dúvida uma dos Justos. Haverá como substituí-la?
(Para conhecer melhor a história dos 36 Justos, há um excelente livro do francês André Schwartz-Bart. Prêmio Goncourt de 1959: "O Último Justo", Editora Europa-América. Se for difícil encontrá-lo, recorra à Internet, que lista ótimas lojas de livros usados. É leitura pesada, triste, instrutiva; e muito boa.)



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