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Monteiro Lobato, autor do Mein Kampf

Antes que venham os impropérios e as maldições, confesso que esse título foi mesmo talhado para chamar atenção. Mas não é "só para" chamar atenção, claro, nem para acusar o pobre Monteiro Lobato de nazista ou coisa que o valha. O título também quer homenagear a sagacidade de Borges e, principalmente, quer convidar a uma reflexão. Pois é justamente essa reflexão, bem atual, que eu gostaria de sublinhar ao longo do texto.

Feita a ressalva, vamos ao que interessa. Ganhei de natal um dos livros mais comentados do ano passado. O presidente negro, de Monteiro Lobato. Escrito em 1926, portanto bem antes da eleição de Barack Obama, a obra prevê desde a ascensão de um homem negro à presidência dos EUA até a disseminação do movimento feminista e a invenção de algo que lembra muito a internet. Além disso, é um livro de ficção científica abertamente inspirado em A Máquina do Tempo, de H. G. Wells, e com um retrato do futuro mais parecido com o do americano do que gostaríamos de admitir. Não foram poucos os que se lembraram de apontar o fato de que a ficção científica é um gênero negligenciado pela literatura brasileira.

Relançado pela Editora Globo no ano passado, O presidente negro suscitou uma curiosidade enorme, e não só no Brasil: a Slate, por exemplo, dedicou um artigo ao livro ainda em setembro, antes mesmo da vitória do candidato democrata. Nos jornais e na blogosfera discutiu-se, sobretudo, até que ponto se tratava de uma obra racista, e se esse tal racismo e outras idéias que, hoje em dia, se tornaram pouco ou nada defensáveis, justificariam uma condenação de Lobato ou não. Daí, aliás, a motivação para o título provocativo aí acima.

O assunto estava morto quando minha irmã, sempre atenta às polêmicas do tempo, me presenteou com o livro. Mas não o li, ocupado que estava com mil outras coisas. Só fui pegá-lo quando ela me cobrou comentários a respeito. Pois bem, é um livro curto, está lido. Lá vão os comentários. Mas antes, mais uma ressalva: é bem difícil falar do único romance de alguém a quem todo brasileiro que se interessa pela leitura é e deve ser profundamente grato. Monteiro Lobato tem um altar no fundo do meu cérebro; acredito que seja o mesmo caso em muitos outros cérebros. Talvez seja esse o motivo para tantos dedos na hora de comentar a obra.

Por exemplo: investiguei bastante através da internet e não encontrei um texto sequer que mencionasse o que há de mais flagrante no livro. Lemos, na introdução, que O presidente negro foi escrito às pressas, na esperança de que alguma editora americana se interessasse (Lobato estava para se instalar em Nova York, como adido comercial). Isso talvez explique, mas certamente não justifica que o resultado, para lá de todas as previsões e de todas as polêmicas raciais, seja tão ruim.

Na linguagem, não difere muito de Reinações de Narizinho, Geografia de Dona Benta ou O poço do Visconde; mas essas são todas obras (aliás, brilhantes) para o público infantil. A escrita precisa das obras curtas, como encontramos em Cidades Mortas e Urupês, foi deixada de lado em O presidente negro, sabe-se lá por quê. Os diálogos são de uma fraqueza amadora, os personagens não têm um pingo de consistência e o enredo dificilmente suscita algum interesse. Enfim, o principal gracejo do livro é o nome da empresa onde trabalha Ayrton Lobo, o protagonista e narrador: Sá, Pato & cia. Um trocadilho que, à parte não ter graça, não dá em nada.

Ayrton é caracterizado como um simplório, empregado medíocre de uma empresa sem ambições. Às vezes, ele decai e aparece como um débil mental capaz de comentários rasteiros; mas, virando a página, o mesmo Ayrton, de súbito, faz paralelos entre os eventos futuros que lhe são narrados e episódios históricos ou mitológicos de Roma e da Grécia, dignos de alguém com uma sólida educação clássica. Personagens complexos, até contraditórios, são algo a valorizar na literatura (Monteiro Lobato detestava, por sinal), mas há limites. No caso de Ayrton Lobo, é como se o Marquês de Rabicó se pusesse a recitar Virgílio enquanto foge de Tia Nastácia.

Talvez para agradar um público acostumado a Hollywood, Monteiro Lobato entremeou seu enredo com uma história de amor. Mas nem ele mesmo parece acreditar no que coloca no papel, a tal ponto que, quando o livro já terminou há muito, ele se lembra de que precisa dar um ponto final no assunto, e o resolve desleixadamente. O mesmo acontece com a maior parte dos conflitos, aliás pouco conflituosos. A resolução é sempre banal e desinteressante.

Pessoalmente, com o perdão da concessão ao comentário pessoal, acredito que o autor tinha plena consciência de que a história em si pouco importava. Era um pretexto, um nada, diante do que realmente o motivara a escrever o livro e que seria, de fato, o que mais chamaria a atenção de quem o lesse e comentasse ao longo das décadas seguintes: sua visão do que o futuro reservava.

Se for o caso, ele acertou em cheio. O que se escreveu sobre O presidente negro em 2008 pode ser dividido em dois vetores. Primeiro, o espanto diante de tantas previsões acertadas: uma evolução tamanha do rádio, a ponto de o jornal impresso desaparecer e o trabalho poder ser todo feito em casa (ou seja, internet). Uma mulher e um homem negro disputando a presidência nos EUA. Questões de imigração na Europa. Pouco se comentou, é verdade, sobre as previsões disparatadas, como o jornal psicografado pelos mortos, a projeção dos sonhos e o desaparecimento da língua portuguesa. Mas, pelo visto, o importante é elencar os acertos.

O segundo vetor também é de espanto, mas diante das idéias eugênicas e francamente racistas que as personagens defendem. Alguns exemplos, escolhidos a esmo, folheando o livro:

(.) Fecharam-se todas as portas ao fluxo europeu e a nação passou a crescer vegetativamente apenas. Data daí a "inflação do pigmento". Até essa época a população negra representava um sexto da população total do país. A predominância do branco era pois esmagadora e de molde a não arrastar o americano a ver no negro um perigo sério [N.A.: não deixe de notar a oposição entre "americano" e "negro"]. Mas com o proibicionismo coincidiu o surto das idéias eugenísticas de Francis Galton. As elites pensantes convenceram-se de que a restrição da natalidade se impunha por 1.001 razões, resumíveis no velho truísmo: qualidade vale mais que quantidade. Deu-se então a ruptura da balança. Os brancos entraram a primar em qualidade, enquanto os negros persistiam em avultar em quantidade. Foi a maré montante do pigmento. Mais tarde, quando a eugenia venceu em toda a linha e se criou o Ministério da Seleção Artificial, o surto negro já era imenso.

(.) - Entrou o negro e foi esse o único erro inicial, cometido naquela feliz composição [N.A.: dos "melhores elementos das raças brancas européias" nos Estados Unidos].

(.) Também aqui arrostamos com igual problema, mas a tempo acudimos com a solução prática (.) A nossa solução foi admirável. Dentro de cem ou duzentos anos terá desaparecido por completo o nosso negro em virtude de cruzamentos sucessivos com o branco. (.)

- A nossa solução foi medíocre. Estragou as duas raças, fundindo-as. O negro perdeu as suas admiráveis qualidades físicas DE SELVAGEM [destaque meu] e o branco sofreu a inevitável piora de caráter, conseqüente a todos os cruzamentos entre raças díspares.

Um país não é povoado como se quer, senhor Ayrton, ou como apraz aos idealistas. Um país povoa-se como pode. No nosso caso foi o clima que estabeleceu a separação. Dos europeus só os portugueses se aclimavam na zona quente, onde, graças às afinidades com o negro, continuaram o velho processo de mestiçamento, acabando por formar um povo de mentalidade incompatível com a do Sul.

As mulheres não mais evocavam fisicamente suas avós, magras umas, outras gordas, esta toda nádegas, aquela uma tábua ou de enormes seios e dentes de cavalo - verdadeira coleção de monstruosidades anatômicas. Nem recordavam socialmente as pobres cativas de antes, forçadas a girar no triângulo de ferro - casamento, celibato à força ou promiscuidade. Finas sem magreza, ágeis sem macaquice, treinadas de músculos por meio de sábios esportes, conseguiram alcançar a beleza nervosa das éguas puro-sangue - o que trouxe a decadência do hipismo. Já não necessitavam os homens dedicar-se aos cavalos para satisfação da ânsia secreta da beleza perfeita.


Trechos como esses causaram espécie entre os leitores do século XXI, o que não é surpreendente. Mas relendo tudo que se escreveu sobre o assunto, o que me salta aos olhos é o cuidado extremo com que a maioria dos autores tenta tratar "a questão". Na leitura imediata, somos tentados a ver Monteiro Lobato, aquele autor feérico que tanto amávamos na infância, inclinado para o nazi-fascismo. Em seguida, com um pouco mais de recuo, podemos chegar à conclusão que me pareceu a mais disseminada na minha breve estatística de internet: Lobato nada mais faz, senão reproduzir seu contexto, isto é, "os preconceitos de seu tempo". De fato, a julgar pelas decisões governamentais brasileiras e pelos artigos da imprensa do período, elencados e comentados por Thomas Skidmore em Preto no branco, a questão racial tinha lugar destacado na lista de preconceitos dos anos 1920.

Cabe, porém, alterar um pouco o prisma. É possível parar na primeira etapa ou na segunda, de acordo com as preferências de cada um. Mas ambas me parecem bem insuficientes para colocar O presidente negro e seu autor numa perspectiva satisfatória. Associar alguém aos crimes que, anos depois, seriam cometidos em nome de idéias que ele defendeu, de forma a condená-lo, me parece precipitado e injusto. Por outro lado, absolver as atrocidades de uma pessoa porque são as atrocidades da época em que viveu nos levaria a absolver todas as atrocidades jamais escritas e pensadas.

Aí é que enveredamos por uma das sendas mais difíceis que há. O que fazer do passado? Ou, neste caso, o que fazer de Monteiro Lobato? Com efeito, no mesmo ano em que o jornal A Manhã, do Rio de Janeiro, publicava os capítulos de O choque (primeiro nome do romance), Adolf Hitler fazia publicar na Alemanha o segundo volume de seu panfleto autobiográfico e "teórico", o famigerado Mein Kampf (Minha luta), ditado a Rudolph Hess na prisão. Creio não ser preciso mencionar que muitos dos ditos preconceitos da época - ou do contexto, se preferir - estão claros e explícitos nesse livro. Naturalmente, sem o humor de Monteiro Lobato, nem a escolha de situar os ideais num futuro afastado. Mas com semelhanças por vezes desconfortáveis. E podemos absolver uma doutrina como o nazismo por seus conceitos de supremacia racial?

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É claro que o julgamento histórico não se faz sobre os escritos, mas sobre os atos ou, para usar um termo do vocabulário teológico, as obras. Hitler e sua malta, por um lado, aplicando os princípios tecnológicos e racionais do século XX, levaram às últimas conseqüências as idéias sectárias de Mein Kampf e conduziram à aniquilação quase completa o canto do mundo que se considerava o mais civilizado. Por outro lado, Monteiro Lobato lutava para modernizar o Brasil, combatia o comodismo, admirava o arrojo industrial de Henry Ford e dos americanos em geral, investiu na prospecção de petróleo e não teve pudores de ser preso por isso. Claramente, alguma diferença deve haver entre um e outro defensor dos "preconceitos da época".

Mas ainda é necessário examinar o outro lado da moeda. Mesmo naqueles tempos, havia não pouca gente cujas idéias divergiam profundamente desses tais preconceitos do tempo. Em 1926, Gandhi já havia conseguido unificar as etnias da Índia na luta não-violenta pela autonomia. Gauguin há muito já pintara os nativos no Taiti. João Cândido já se mostrara um navegador mais competente do que os brancos que o chicoteavam. E, mais importante ainda, os movimentos modernistas do mundo inteiro, inclusive no Brasil, já tinham rompido com os padrões supostamente helenísticos da estética, retratando o homem enquanto operário e lavrador, negro, índio e asiático. Já Monteiro Lobato, em artigos como "Paranóia ou mistificação", sobre uma exposição de Anita Malfati, definiu essa arte como "decadente". (Os nazistas também usavam esse termo, mas preferiam "degenerada".)

O que esses exemplos demonstram é que os preconceitos de uma época não são imperativos e inescapáveis. A propósito, melhor seria usar o termo marxista, "ideologia", que dá conta de como as idéias se formam e combatem no interior de uma estrutura social. Mas o vocabulário marxista foi abolido, fiquemos mesmo com a idéia (um pouco anódina) de preconceito. Mas antes de continuar, é preciso entender o que falta nesse conceito: o fato de que, em cada período, existem diversas maneiras de pensar, com mais ou menos preconceitos, dificilmente sem nenhum.

Uma parte significativa desses pensamentos são automáticos, meras reproduções ou atualizações de noções recebidas. Mas não todos. Existe sempre, em alguma medida, a possibilidade de escolher as próprias opiniões e pensamentos. Essa possibilidade, claro, varia de pessoa para pessoa, segundo sua posição na sociedade, seus compromissos, seus interesses, seu nível cultural, sua coragem, seus vínculos. Mas é sempre acessível a alguém que publica livros e artigos, como Monteiro Lobato.

Alguns artistas decidiram se revoltar contra os padrões acadêmicos. Lobato decidiu tachá-los de decadentes. Os líderes europeus decidiram fazer concessões à fúria de Hitler, felizes de, com isso, livrar-se dos judeus e comunistas que tanto os incomodavam. Heidegger decidiu se afastar do partido nazista depois de 1934, mas decidiu jamais se desfiliar, até o final da guerra, e decidiu calar quando lhe cobraram explicações. Monteiro Lobato decidiu erguer a voz contra o comodismo brasileiro e decidiu lutar pela industrialização do país. Mas também decidiu concordar com todas as doutrinas raciais do tempo, e de forma acrítica, ao contrário de muitos de seus contemporâneos.

Por um lado, isso não faz dele nenhum fascista. Os horrores de Dachau e Buchenwald o tocaram profundamente, como a qualquer um que tenha um mínimo de decência. Mas não deixa de ser incômodo descobrir que alguém tão progressista em matéria econômica podia ser tão conservador - por que não dizer, retrógrado - no campo social. Alguém capaz de dispensar com escárnio o epíteto (terrivelmente ofensivo) de "comunista" a alguém que defendesse idéias subversivas como, vamos lá, o sufrágio universal. Mas, que dizer?, esse é o Monteiro Lobato por inteiro, com suas qualidades e, sim, defeitos. Louváveis uns, terríveis os outros.

Também nós e nossa época temos preconceitos. Também nós temos a possibilidade de escolher entre aderir a eles ou combatê-los. E com que facilidades nos esquecemos disso. Mas, no futuro, também seremos julgados por nossa postura diante dos absurdos do tempo que corre; como, hoje, julgamos Monteiro Lobato, que se deixou seduzir pela sereia eugenista, sexista e segregacionista. Então, como agora, não será desculpa nenhuma alegar que só reproduzimos as tolices de nossa época. Porque, no tempo de Lobato como no nosso, os atos e os pensamentos têm implicações, e é com elas que temos de lidar.


* Diego Viana é Jornalista e Economista. Está desde 2007 na Paris estudando a filosofia e a vida do Velho Continente. Possui seu blog e contribui com artigos para o Le Monde Diplomatique